“É como um tiro no meu peito”, diz filha no enterro da mãe, vítima de feminicídio em Paulista

Velório de Sandra Justino. Na foto: Débora Justino, filha da vítima. - Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco
O velório e enterro da esteticista Sandra Justino de Barros, de 37 anos, foram marcados por revolta, dor e comoção no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, no Grande Recife. O corpo foi enterrado numa gaveta, às 11h40 desta terça (17).
A sala 2, onde o caixão ficou inicialmente, estava lotada. Na saída para o cortejo, um corredor de mulheres funcionárias do cemitério foi formado. Elas prestaram uma homenagem à vítima, com flores, se solidarizando por conta de mais um feminicídio. Dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE) mostram que em 2025, 88 mulheres foram mortas por esse crime. Somente entre janeiro e fevereiro últimos, 18 vidas foram ceifadas no estado por feminicídio.
Sandra foi encontrada morta em casa, no Conjunto Beira-Mar, em Pau Amarelo, por volta das 15h do último domingo (15). A vítima estava de bruços no chão do quintal de casa. A família denuncia o ex-companheiro dela, Antônio Carlos Nascimento dos Santos, de 46 anos, como o principal suspeito do assassinato. Ele foi preso em flagrante, nessa segunda (16), pela polícia em Caruaru, no Agreste, e levado para a Delegacia de Santa Cruz do Capibaribe.
Na declaração de óbito, a qual a Folha teve acesso, consta que a vítima sofreu um traumatismo cranioencefálico provocado por “ação de meio contundente”, ou seja, Sandra sofreu impacto de algum tipo de objeto contra a cabeça.
Sandra deixa duas filhas, uma de 17 e outra de 21 anos. Esta última se chama Débora Justino. Ela é auxiliar administrativo e, junto a uma amiga, foi quem encontrou a mãe morta em casa. Ela narrou o que viu naquele dia. É uma cena de terror que parece nunca sair da cabeça.
“Uma vizinha que mora no primeiro andar disse que não escutou nada, porém, outros que moram ao lado e de frente falaram que ouviram um barulho estranho, mas não tinham certeza de nada. Minha mãe [Sandra] não chegou a entrar em casa”, diz.
“A Polícia Militar me ligou, dizendo que a filha precisava ir lá. Como sou maior de idade, fui. Foi fatal. Ela estava sem vida. É inexplicável. Não tinha como socorrer. Ela estava desde a madrugada lá estirada no chão. É uma angústia, é como um tiro no meu peito que não dá para explicar”, detalha.
Segundo os parentes, o casal tinha um relacionamento conturbado. Eles estavam juntos há cerca de quatro anos, mas haviam se separado há pouco mais de um mês, mas Antônio Carlos não aceitava o fim da união.
“Ele perseguiu minha mãe, do sábado para o domingo, quando percebeu que ela tinha saído de um bar que fica perto da hamburgueria [que ele tem em Paulista]. Ele estava desesperado. Pegou uma Kombi, foi atrás dela e aconteceu isso […]. Aquele nojento tirou o sorriso da minha mãe, da nossa família. Estamos sem saber o que fazer, mas eu vou até o fim. Eu quero justiça. Minha mãe era linda, era morena, tinha um cabelão e pura. Só quem tinha contato com ela sabia”, complementa.
O sonho que não se realizou
Sandra trabalhava com estética e, ainda segundo a filha, tinha planos para inaugurar um salão de beleza ontem (16). O crescimento dela também teria sido motivo de perseguição por parte do suspeito.
O último contato
Uma amiga da família, de 28 anos, que não quis se identificar concedeu entrevista à Folha. Ela também trabalha na hamburgueria que o suspeito tem no bairro do Carmo, em Olinda. No sábado (14), ela estava junto com Sandra. Em conversas anteriores com a vítima, tomou ciência das discussões entre o casal, até presenciar um conflito entre os dois, no próprio estabelecimento.
“No Carnaval, ele estava bêbado. A filha mais nova dele e eu abrimos a hamburgueria. Com uma hora depois, Sandra chega. Depois, um cliente se desentendeu com ela e os dois [Sandra e o cliente] começaram a discutir. Ele [Antonio Carlos] estava dormindo no quarto. Nós tínhamos que acordá-lo para conter a situação. Quando chegou lá, começou a se desentender com ela também e eu pedi para um funcionário conter a situação. Eu fiquei constrangida. Ela mandou parar o funcionamento. Ele foi à cozinha, pegou ela pela farda, soltou e abraçou S** [filha mais nova]. Ela saiu desesperada da cozinha e começou a chorar. Eu fiquei desesperada”, recorda.
Traumatizada, a funcionária diz que não queria ter voltado para trabalhar, após a confusão. Contudo, após conversa com a vítima, voltou ao serviço. Logo em seguida, Sandra parou de trabalhar no estabelecimento.
“Eu me tornei íntima dela e perguntei bem seriamente: ‘Antônio te bate?’. Ela olhou para mim, arregalou os olhos e disse: ‘Eu me separei porque eu não aguento mais. É muito pau que ele me dá. Ele me tranca!’. Foi aí que eu entendi o porquê que S** [filha mais nova] era nervosa. Ela confessou para mim, porque eu já sabia de tudo. No dia em que ela se foi, nós estávamos juntas num bar nos divertindo, como sempre. Ela me abraçou a noite toda. Eu perguntei se estava carente. Ela disse que não. Era uma pessoa a muito boa, acho que a mais justa que eu já conheci”, destaca.
Mensagens que despertam ódio
O advogado da família é Sérgio Gonçalves. Ele fala que, pouco após o crime, o suspeito teria enviado mensagens para a filha mais nova do casal, alegando ter flagrado a vítima abraçada com outro homem. Ele teria pedido perdão pelo crime.
“Por azar dele, ele foi preso e vai continuar, porque essa confissão vai ser juntada aos autos. Sandra não quis esse relacionamento, por muitas vezes. Ela não estava feliz e foi ameaçada constantemente por ele, como as filhas também. Ele é narcisista e cruel. Ele matou a mulher e merece a pena máxima. Essa família não pode estar buscando justiça e essa justiça não acontecer. Uma coisa eu garanto a você, Antônio: você está preso e vai continuar preso, porque você é um feminicida, frio e calculista. Desde o começo você estava monitorando ela, ainda quando ela estava ao lado da hamburgueria”, conclui.
(Fonte: Folha PE)
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