“De mãos dadas”: auxiliar de serviços gerais realiza o sonho de trabalhar com a filha médica

“O meu coração falava que ela vinha trabalhar aqui comigo. Que eu ia entrar com minha filha de mãos dadas, minha filha como uma funcionária pública da prefeitura e eu como Edilene, do serviço da limpeza”. O relato carregado de emoção e orgulho é da auxiliar de serviços gerais Edilene Gomes, de 56 anos, que passou a compartilhar o mesmo ambiente profissional com a filha.

A médica ginecologista e obstetra Patrícia Lima, de 33 anos, foi nomeada recentemente pela Prefeitura do Recife e, desde a última quinta-feira (29), passou a integrar a equipe da Policlínica e Maternidade Professor Arnaldo Marques, no bairro do Ibura, na Zona Sul da capital pernambucana, onde a mãe atua há 23 anos.

Edilene afirma que foi fundamental para garantir o sustento das duas filhas e permitir que elas se dedicassem apenas aos estudos. – Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco

“É gratificante. Acho que com palavras eu não consigo resumir tudo o que a gente passou, que a gente viveu e o que a gente está vivendo hoje. Um sonho realizado, um sonho que foi minuciosamente pensado como seria, sempre dizendo que ia dar certo, nunca desistimos dos nossos sonhos”, afirmou Edilene.

Além da médica Patrícia, Edilene também é mãe da biomédica Bárbara Lima – formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – e destaca que seu emprego, conquistado quando a família enfrentava dificuldades financeiras, foi fundamental para garantir o sustento das duas filhas e permitir que elas se dedicassem apenas aos estudos.

“A partir do momento que eu comecei a trabalhar [na policlínica], eu tive uma condição financeira melhor para que não faltasse mais alimentação, para que eu pudesse ajudar da forma que eu pude”, relatou a auxiliar de serviços gerais, que criou as filhas sozinha.

Sonho construído na infância

O desejo de ser médica acompanhava Patrícia desde a infância. Ao passar diante de hospitais, ela dizia à mãe que um dia trabalharia em um deles. A vontade, porém, parecia distante diante do contexto de vida.

“Eu tenho essa lembrança desde a minha infância de que queria ser médica, não sei realmente de onde esse sonho surgiu, porque não tivemos nenhuma referência. Só sei que nasceu do meu coração e acho que nasci para ser médica, para ser ginecologista e obstetra”, afirmou Patrícia, que cresceu no bairro do Ibura.

Foi aos 14 anos, após ingressar na Escola Técnica Estadual Cícero Dias, na Zona Sul do Recife, que começou a compreender as possibilidades de acesso à universidade e a se preparar para o vestibular. Ao final do ensino médio, passou a estudar em bibliotecas e a buscar cursos preparatórios.

“Ia para bibliotecas todos os dias estudar sozinha, respondia a questões, tudo de forma muito inicial. Fui passando em alguns pré-vestibulares e passei no pré-vestibular Portal, onde tinha aulas com alunos que já tinham passado em medicina. A partir daí, fui vendo outras pessoas que tinham a mesma realidade que eu, também com esse sonho de fazer medicina”, destacou Patrícia.

A médica conta que a rotina de estudos era intensa. Ela estudava durante o dia, muitas vezes na UFPE, onde encontrava livros e um ambiente mais adequado para se concentrar, e frequentava aulas do preparatório à noite.

“Teve um dia em que eu estava na Federal e decidi: ‘Vou tentar medicina e eu não vou desistir até conseguir’. Eu lembro bem desse dia. A partir daí, estudando, tentei dois anos e consegui passar na Universidade de Pernambuco (UPE), em 2012, através do sistema de cotas”, afirmou Patrícia.

Apesar das dificuldades financeiras, Edilene ofereceu amor, incentivo, cuidado e acolhimento | Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco

Dificuldades

A médica lembra que o curso era integral e que a falta de recursos financeiros dificultava despesas básicas, como transporte e alimentação. Patrícia levava marmita e permanecia na biblioteca até o fechamento do local, por não ter estrutura em casa para estudar.

“Tomava café da manhã em casa, levava marmita de almoço e, às vezes, não tinha o que jantar por conta da dinâmica de preparar várias marmitas. Na biblioteca havia livros, ar-condicionado e cabines, sendo o ambiente perfeito para estudar. A maior dificuldade foi essa questão financeira de querer um lanche, uma pipoca, e às vezes não ter dinheiro algum para isso”, ressaltou a médica.

A mãe, Edilene, acompanhou de perto o período. Mesmo sem conseguir oferecer tudo o que gostaria financeiramente, procurava garantir amor, incentivo, cuidado e acolhimento.

“O momento mais difícil foi quando eu a vi se empenhar tanto para entrar na universidade, para conseguir os objetivos dela e eu não tinha condição financeira. […] Acho que a minha ajuda foi de cuidado, de chegar, ter a comida feita, o cafezinho feito, a janta feita, o almoço já preparadinho para ela no outro dia, o amor, o cuidado. Acho que isso foi importante para que a gente conseguisse alcançar os nossos objetivos”, declarou a mãe.

Patrícia concluiu a graduação em medicina em 2018 e lembra que a formatura foi marcada por gestos de solidariedade. Colegas de sala e profissionais da maternidade onde a mãe trabalha ajudaram com vestido, maquiagem, estetoscópio e outros itens para que ela pudesse celebrar o fim do curso e o início da profissão.

“Não pude participar da formatura completa por ser muito cara, mas participei parcialmente da colação de grau. Colegas da minha sala me ajudaram a participar. Pessoas da nossa família e da policlínica acompanharam isso”, afirmou.

Depois de formada, Patrícia trabalhou como médica de família e comunidade na cidade de Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife, por três anos, período em que conseguiu ajudar financeiramente a mãe e a irmã.

Em 2021, passou na residência médica em ginecologia e obstetrícia, no Hospital Barão de Lucena, no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife, onde também fez uma formação complementar em gestação de alto risco.

“Antes de entrar na universidade, eu já sabia que queria essa especialidade. Avaliando hoje em dia, entendo que fui criada por mulheres em uma família majoritariamente feminina, o que considero meu grande incentivo para trabalhar como médica obstetra”, destacou a médica, que acompanhou desde pequena a rotina da mãe na maternidade.

“Nós crescemos aqui. Mainha sempre andava com a gente pelos corredores desde pequenininha e já fomos atendidas aqui. Sempre gostei de estar em hospitais”, ressaltou.

Após a aprovação de Patrícia, mãe e filha passam a trabalhar no mesmo local | Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco

Sonho realizado

Quando foi aprovada no concurso da Prefeitura do Recife, Patrícia não teve dúvidas sobre onde gostaria de trabalhar. Ao ser questionada sobre a unidade de preferência, escolheu imediatamente a Policlínica e Maternidade Professor Arnaldo Marques.

“Comecei a imaginar o quanto seria emblemático, histórico e uma recompensa a esse trabalho com o qual mainha conseguiu nos manter para que não precisássemos trabalhar. Surgiu o sonho de voltar como médica concursada, trabalhando ao lado da minha mãe […] Meu grande sonho sempre foi ser ginecologista e obstetra, mas voltar para a maternidade onde minha mãe me criou e cujo emprego possibilitou realizar esse sonho tem sido uma nova página na nossa história de vida”, afirmou Patrícia.

Edilene soube da notícia da aprovação da filha por meio de uma colega de trabalho. Ao confirmar a notícia, não conteve a emoção.

“Eu sabia que ela tinha feito o concurso e ficava sempre na expectativa. No dia que aconteceu, eu não estava sabendo. Passou uma amiga e disse: ‘Olha, a gente tá lá em cima falando da tua filha’. Aí eu fui atrás dela, disse: ‘O que que tá acontecendo? Aí ela fez: ‘Mulher, tu não tá sabendo não?’ Aí eu disse: ‘Não’. Aí ela fez assim: ‘Tua filha foi chamada, tua filha daqui a pouco chega aqui’. Aí eu desabei, porque o sonho foi realizado, o sonho foi concluído”, destacou Edilene.

O sentimento, lembra a auxiliar de serviços gerais, é de gratidão. Ela diz enxergar na formação das filhas um sonho que não conseguiu realizar.

“Quando era adolescente, eu queria me formar, mas não tive condições. Esse sonho parece que foi transportado para elas, e elas conseguiram. É como se fosse meu. É como se eu tivesse me formando, é como se eu estivesse sendo a doutora”, relatou a mãe, emocionada.

(Fonte: Folha PE)

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